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Uma nova terapia para política?

Andrew Samuels

A crise na política é também uma oportunidade para a revitalização do sistema, argumenta o psicoterapeuta britânico Andrew Samuels em seu novo, controverso e muito debatido livro Política no Divã

Psicoterapeutas sempre acreditaram que seus insights poderiam ser tão úteis para a sociedade o quanto o são para seus pacientes. Freud falou da compreensão dos “Enigmas do mundo”, enquanto Jung disse que os terapeutas “não podem evitar a confrontação com a História contemporânea”. Porém, categoricamente negando a ajuda oferecida, o mundo nunca apareceu para sua primeira sessão de terapia. E talvez não fazê-lo tenha sido um ato de sabedoria. Muitas tentativas de relacionar idéias psicoterapêuticas à assuntos sociais acabaram se limitando a nada mais do que a insistência de que tudo é psicológico – o que permite que os terapeutas mantenham uma postura de superioridade. Enquanto isso, a moda de analisar figuras políticas em público vem sendo, com certa razão, ridicularizada. Deteriorando a imagem do terapeuta de um comentarista socialmente responsável.

No entanto, se os conceitos terapêuticos ainda não foram devidamente aplicados em nossa vida política, talvez tenha finalmente chegado a hora. É cada vez maior o número de pessoas que repudiam o sistema político atual e também vem aumentando a sensação de que as providências políticas em voga não têm o poder de resolver nossos problemas sociais. Nós poderíamos nos tornar cada vez mais dispostos à pensar em abordagens alternativas. Enquanto que a política sempre tratará de lutas pelo poder e controle dos recursos, uma nova compreensão está surgindo de que, tal como nos ensinou o feminismo, tudo o que é pessoal é na verdade político - e vice versa. E nesse sentido os terapeutas podem ter alguma coisa para contribuir.

Observe a questão da liderança. Um dos mais perigosos, antiquados, mas ainda persistentes temas da nossa vida política é a crença no líder heróico. Mas enquanto a liderança remeter à uma estória de heróis, nós continuaremos a ter uma camada social mais baixa desmoralizada e uma elite faminta por poder. O que nós precisamos, portanto, é mudar o relacionamento psicológico entre políticos e cidadãos. Nós temos que aceitar a idéia de que nossos líderes inevitavelmente nos desapontarão em algum momento, e que a liderança é, num certo sentido, a arte de administrar o fracasso. A gente pode então olhar para esses defeitos e ver o que nós podemos aprender com eles, ao invés de ficar culpando o velho e ansiando por um novo líder heróico. Este é o tipo de processo ao qual os terapeutas e seus clientes estão engajados em sua rotina. Na esfera pública, nós temos que tentar sempre, por mais doloroso que seja, estipular um novo acordo com as limitações daqueles que um dia a gente infantilmente admirou, finalmente aceitando que ninguém pode ser melhor do que “suficientemente bom”. E nós temos que encontrar isso dentro de nós mesmo para ir além do cinismo e da sensação de abandono (que podem ser igualmente infantis) e confiar num dado momento em um certo líder.

Para mudar nossas idéias sobre os líderes também precisamos mudar nossa visão de nós mesmos enquanto cidadãos. Muito tem sido escrito sobre a apatia ultimamente. Existe no entanto, um consenso de que o problema estaria relacionado à muita paixão, exageradas aspirações e à crença em soluções perfeitas- o que conduz, inevitavelmente ao desapontamento e a retração. O que parece ser uma apatia é na verdade um difuso sentimento de impotência, freqüentemente associado a uma intensa autocrítica. Sentindo-nos assim não podemos realizar nada daquilo que sabemos que precisa ser feito – Nós não temos nem o poder nem temos um método para solucionar os assustadores problemas da pobreza, injustiça,despoluição do meio ambiente - nós desistimos da política, nos encerramos em nossas vidas privadas (deixando nossos valores e aspirações políticas adormecerem) e não fazemos nada. Novamente, as idéias da psicoterapia poderiam ser úteis nesse contexto. Se nós pudermos aceitar que a perfeição política é inatingível, e se nós nos perguntarmos se somos cidadãos “suficientemente bons” (do mesmo modo que a gente espera por líderes suficientemente bons), nós talvez possamos nos libertar dessa sensação de desespero que nos paralisa no presente, de forma que aquelas esperanças e impulsos políticos possam despertar novamente.

Mesmo aqueles que se descreveriam como despolitizados - pessoas que não participam diretamente de nenhum processo político- costumam possuir sentimentos pessoais sobre os eventos políticos. No entanto, a visão tradicional da política tem mostrado que no mundo não há um meio de vazão para esses sentimentos. Em workshops sobre política que eu venho conduzindo ao longo dos anos, eu sou continuamente arrebatado pela quantidade de energia política contida (oposta ao poder político) que existe nas classes baixas de modo geral. Pessoas descrevem todo tipo de reação corpórea e emocional aos eventos em Kosovo, ou ao problema dos sem-teto, ou da falta de espírito de comunidade aonde moram. Porém essas pessoas não vêem forma de transformar essas reações em ações políticas práticas. Elas simplesmente sentem-se sobrecarregadas com esse tipo de emoção. Um dos objetivos dos workshops é encontrar maneiras de articular os sentimentos que os participantes têm em relação à eventos e questões políticas, podendo assim lidar com eles de uma maneira diferente no campo ‘racional’. Reforçando novamente as semelhanças entre esse processo e o da terapia. Cidadãos são capacitados a desbloquear tanto suas energias políticas quanto as psicológicas.

Outra coisa que eu descobri nesses workshops foi que o modo como as pessoas se relacionam com política depende muito de suas personalidades e traços de caráter -- um fato que não é levado em conta quando dividimos os cidadãos em grupos que são apenas baseadas em suas opiniões e suas inclinações partidárias. Em relação à política, como na vida em geral, existem pessoas extrovertidas e introvertidas. Igualmente, existem pessoas que tendem a reagir espontaneamente de acordo com as emoções nelas suscitadas enquanto outras pensam e repensam tudo nos mínimos detalhes até tomarem uma posição.

Por inúmeras razões, algumas relativas ao background pessoal outras ao temperamento inato, o modo pelo qual as pessoas manifestam suas naturezas políticas é bem diverso. Alguns se tornam violentos terroristas, outros pacifistas. Alguns buscam respaldo empírico para suas idéias; outros improvisam. Alguns gostam de participar de atividades políticas cooperativas; outros agüentam o pesadelo de realizar tarefas em grupo apenas com a finalidade de atingir o que se está sendo perseguido.

A concepção de diferentes estilos ou tipos políticos é muito útil na compreensão de conflitos, sejam eles interpessoais, dentro de alguma organização, ou entre nações. Assim como os introvertidos e os extrovertidos sofrem de uma incompreensão mútua, as pessoas de um determinado tipo político freqüentemente não têm nenhuma idéia de como pessoas de um tipo diferente do seu estariam realmente “fazendo” política. Isso não quer dizer que o conteúdo político seja irrelevante, mas apenas que grupos com objetivos completamente diferentes tendem a usar métodos semelhantes para alcançar seus propósitos. E que indivíduos com objetivos similares podem se expressar e atuar de maneira completamente diferente e discordar de como membros do seu grupo agem para alcançar seus propósitos. Se por um lado a existência de diferentes tipos políticos pode gerar discórdia num mesmo grupo, por outro, também é verdade que grupos que se opõem podem descobrir que têm muito mais em comum do que eles supunham.

Há alguns anos atrás eu ministrei alguns grupos de discussão em Jerusalém, com participantes israelenses judeus e palestinos. Eu sugeri ao grupo uma lista contendo vários tipos políticos e os convidei a escolher um ou dois tipos que se adequassem mais às suas personalidades. (A lista continha os seguintes tipos: Guerreiro, terrorista, exibicionista, líder, ativista, paternal, seguidor, criança, mártir, vitima, malandro, curandeiro, negociador, agregador, diplomata, filosofo, místico, indulgente.) Logo ficou claro que existiam similaridades de tipos políticos que iam de encontro à divisão ideológica dos dois grupos. Então se tornou possível conectar indivíduos do mesmo tipo político desses dois grupos distintos. Usando esse novo tipo de formação aonde agregadores conversavam com agregadores e terroristas com terroristas, os diálogos se tornaram menos inibidos e mais engajados.

Finalmente, eu gostaria de comentar sobre como a incidência de depressão nos E.U.A aumentou consideravelmente na ultima década. A minha predição é de que a experiência da eleição Presidencial vá elevar esses números ainda mais. Por que? Nós sabemos que no fundo da experiência da depressão encontram-se sentimentos de culpa e autocensura. Mas o que os terapeutas regularmente encontram por trás desses sentimentos são ódio, raiva e agressividade. O que provoca a depressão é a fantasia infundada de que a raiva que as pessoas sentem destruiu algo ou alguém valioso, o que acaba causando esse sentimento de culpa.

Nosso crescente entendimento de que experiência emocional e social estão conectadas é de muito auxílio nesses casos. Além do mais, muitos grupos em nossa sociedade têm boas razões para se sentirem raivosos: Pobres, minorias étnicas, mulheres (e alguns homens), pessoas com problemas de saúde, pais que não têm um colégio adequado onde seus filhos possam estudar, trabalhadores em empregos destruidores da alma, e cidadãos amedrontados com o que fazemos com o meio ambiente. Você nem precisa sofrer diretamente desses problemas pra sentir raiva, por serem esses problemas coletivos. E as eleições deixaram muitos Americanos muito irritados - - e depressivos-- naturalmente.

Este artigo foi publicado no The Times Higher Education Supplement em janeiro de 2001.

© Andrew Samuels 2001. Todos os direitos reservados.


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