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Don Juan de Marco

Filme escrito e dirigido por Jeremy Leven
Interpretação simbólica por Walter Boechat (*)

Don Juan é personagem fictício, geralmente tido como símbolo da libertinagem. Originado no folclore, adquiriu forma literária no romance do sec. XVII El Burlador de Sevilla (1630), atribuído ao dramaturgo espanhol Tirso de Molina. Posteriormente, tornou-se o herói-vilão de romances, peças teatrais e poemas; sua lenda adquiriu popularidade permanente através da ópera de Mozart Don Giovannni (1787).

A estória conta como no ápice de sua carreira licenciosa, Don Juan seduz uma mulher de nobre família e mata seu pai. Mais tarde, vendo uma estátua de pedra no túmulo do comendador, pai de sua ex-amante, convida-a a jantar com ele, de forma irônica. A estátua de pedra aparece de forma aterradora ao jantar do conquistador, que não se arrepende de seus atos anteriores e é levado à danação eterna em meio a chamas e grande estrondo.

Através da estória de Tirso de Molina, Don Juan tornou-se um protótipo universal, como Don Quixote, Hamlet e Fausto. Outras versões do original de Tirso de Molina apresentam variações; assim El Convidado de Piedra de Antonio de Zamora, popular no sec. XVIII, reduz a catástrofe final do drama de Molina.

Algumas versões não-espanholas também se tornaram bastantes conhecidas, como o drama de Molière Le Festin de Pierre, o poema satírico de Byron Don Juan e o drama de Bernard Shaw Man and Superman.

Este aparecimento contínuo da temática de Don Juan, tema central do filme de Jeremy Leven, e seu repetido sucesso em literatura, teatro e ópera em diversas línguas apontam para sua importância psicológica. Sua repetida emergência nas artes e posteriormente na psicanálise- a conhecida problemática do donjuanismo que chamou a atenção de Freud- apontam para o fato de que Don Juan é uma figura mitológica, arquetípica, um arquétipo cultural do inconsciente coletivo a ser considerado.

Qualquer forma de arte, assim como os mitos, são veículos para a expressão do inconsciente coletivo, e seus conteúdos, os arquétipos, como so definiu Jung. As múltiplas variações literárias de Don Juan, a partir da versão mais antiga de Molina, apontam para uma necessidade, quase uma urgência, de expressão dessa curiosa figura, ao mesmo tempo sedutora e perigosa.

Consideramos esta necessidade de expressão na figura mitológica como uma elaboração a nível cultural de uma problemática essencialmente humana, arquetípica. Seguindo Lévi-Strauss, podemos considerar o mito como a totalidade de todas as suas variantes, já que todas as variantes do mito são importantes. O filme de Jeremy Leven pode ser encarado como mais uma variação do mito original de Don Juan, reatualizado e adaptado a circunstâncias atuais.

É interessante lembrar que em certos trechos do filme diversas versões do mito de Don Juan são lembradas, como que para assinalar sua importância cultural. Assim, quando o psiquiatra visita a casa de seu paciente, encontra duas versões da saga de Don Juan, El Burlador de Sevilla, de Molina e Don Juan, de Byron. Em casa, o terapeuta, que normalmente detesta ópera, escuta o Don Giovanni, de Mozart.

No tocante ao mito original de Don Juan, sua estória nos fala de sua virilidade e compulsão sexual não controlada. O assassinato do pai de uma de suas amantes, trazem a idéia de que há uma incompatibilidade entre o complexo juvenil e o arquétipo do pai, princípio da lei e da ordem. Jung denominou essa figura arquetípica presente em diversos mitos e na literatura de puer aeternus,- eterna criança- seguindo Ovídio, que em sua obra Metamorfoses, assim chamou o menino Cupido, filho de Vênus, portador da aljava de flechas do amor, um puer aeternus avant la lettre. (Aliás, no filme, a ilha de Eros -ou Cupido- ocupa lugar de destaque).

O homem identificado com o arquétipo do puer aeternus tem uma incapacidade de integrar o princípio do pai, tão necessário para o desenvolvimento da consciência. Daí o arquétipo do pai aparecer petrificado como estátua de pedra. A petrificação do pai indica a impossibilidade da vitalização do ego por seus conteúdos estruturantes, pertinentes à ética, moral e limites do possível. A condenação final de Don Juan na estória de Molina aponta para o desfecho trágico, uma psicopatia ou neurose grave sem resolução.

O filme de Jeremy Leven, entretanto trás uma inversão importante em relação ao mito original; agora é Don Juan o portador da renovação e não o seu oposto arquetípico, o arquétipo do pai. Agora, é enfatizada a renovação que o paciente que se julga Don Juan produz em um psiquiatra prestes a se aposentar, distante de sua mulher e de uma vida amorosa criativa.

Na verdade, o filme aponta para uma dialética em termos ideais dos dois princípios, a criança Don Juan e o pai- terapeuta. O paciente tem uma estória pessoal estéril e sofrida. Nasceu filho de um pai pouco presente e em nada significativo. A mãe teve inúmeros envolvimentos amorosos extra-conjugais; quando o paciente tinha 16 anos, o pai veio a morrer atropelado por automóvel. Sua mãe, possuída pelo remorso, interna-se em um convento em uma pequena cidade do México.

Esta história pessoal surge no fim do filme, quando o paciente finalmente discorre, em perfeito contato com o mundo concreto, sua vida. Preferimos a expressão “mundo concreto”, em vez de realidade, pois toda a narrativa mitológica de identificação com El Burlador de Sevilla é real, na medida mesma em que é psicológica. Esse in Anima, é o moto de Jung, que significa que a realidade da piquê é tão realidade quanto a realidade do mundo concreto, e não menos importante que esta última.

No caso, as imagens simbólicas estruturadas pelo paciente, têm uma função organizadora sobre seu psiquismo, e não desorganizadora. É um quadro histérico típico, podemos dizer. Sim, é verdade, apenas para nos orientarmos de forma psicodinâmica, dentro de um diagnóstico sindrômico, o qual nos protegeria do erro fundamental de querer medicar o paciente com drogas anti-psicóticas como se ele estivesse em surto psicótico, como ocorre no filme.

A realidade da alma do paciente é Don Juan, e muito mais tolerável do que a realidade externa, estéril e sofrida. Mas percebemos também que a realidade do psiquiatra não é saudável, por sua parte. Nesta variação mitológica, o puer aeternus interage com seu oposto, o senex, o pai, que como todo símbolo, é pleno de ambigüidade: dá a noção da realidade e de limites, mas também representa a senilitude, a decadência e a monotonia da repetição. O senex personifica o próprio pai Saturno, que devora seus filhos logo após nascerem, impedindo a renovação. A dualidade puer et senex se estrutura no filme com clareza.

Neste aspecto, a escolha de atores não poderia ter sido melhor. Marlon Brando tem, pelo menos à época desse trabalho, o perfeito phisique du rôle. O corpo enorme, com uma obesidade que se destaca desde sua primeira aparição, contrasta perfeitamente com o corpo leve, dançarino e esbelto do Johnny Depp. O peso do saturnino senex em contraste com a leveza mercurial do puer.

Fica claro, logo que penetramos na intimidade da vida do psiquiatra, que ele necessita da leveza de seu paciente. Mercúrio é leve demais, plaina no alto de edifícios e pode se suicidar, mesmo que essa tentativa de autodestruição seja muito mais teatral que verdadeira. Saturno, cujo metal é o chumbo, afunda-se em sua melancólica aposentadoria. Suas defesas obsessivas pelo trabalho não serão mais possíveis, ele precisa agora confrontar suas fraquezas conjugais.

A alquimia do chumbo em conjunção com o mercúrio, levando ao equilíbrio, é por demais artificial, é quase como se fora a fabricação da pedra filosofal por algum alquimista. Podemos vê-la como uma metáfora, e toda metáfora admite uma leitura em vários níveis.

A grande terapia do paciente identificado com o arquétipo de Don Juan não é nenhuma medicação anti-psicótica possível, mas a transferência, o importante fator de transformação. A transferência, em sentido amplo, no qual o analista também transfere, e não apenas contra-transfere. Jung, já apontara na década de ’40 que analista e analisando são como duas substâncias químicas que interagem; isto é, o analista também transfere, e transforma-se mesmo no processo terapêutico em que há transmutação psíquica em profundidade.

Se o mercúrio é leve demais, e precisa do peso e a limitação do chumbo terapêutico, também este último necessita da imaginação mercurial em seu processo existencial. O analista de Jeremy Leven é ajudado por seu paciente.

Este processo alquímico refere-se a processos ainda mais profundos do aqueles que Money-Kirley quis enfatizar com seu conceito de contra-transferência normal, avançando a noção mais clássica de Freud de que a contra-transferência seria sempre indesejável.

Vários símbolos importantes perpassam o filme e têm importância para uma interpretação simbólica. Em primeiro lugar, a máscara.

O paciente passou a usar estranho traje do tipo espanhol com máscara. Relata ter passado a usar máscara aos 16 anos quando se afastou de sua mãe, a quem denomina D. Inez. Fala com curioso sotaque espanholado. A máscara aparece ainda em fotos de uma mulher de revista pornográfica por quem o paciente se sentira atraído e o rejeitara, quando esse lhe telefona.

Posteriormente, quando em seu riquíssimo mundo de fantasia, Don Juan torna-se náufrago, encontra a mulher de seus sonhos em uma ilha deserta. Ao lhe contar todas as suas conquistas, perde seu amor, a mulher desejada foge dele. Desde então, Don Juan promete nunca mais retirar a máscara, pela perda do objeto amado.

Em todas estas situações a máscara representa o objeto de desejo perdido; ocorre uma identificação com o objeto sexual desejado. Representa portanto uma situação de perversão e fetichismo; uma estruturação perversa de suas defesas psíquicas.

Quando Don Juan é enviado para Cadiz por sua mãe, logo após esta abraçar a vida religiosa, o navio o leva para um sultanato como escravo. Neste local, veste-se como mulher para ser amante da rainha, além de conviver no harém com inúmeras outras mulheres, em experiência sexual contínua.

O próprio sultão acaba por escolhê-lo como futura companheira, em sua forma transvestida. Aqui o transvestismo, donjuanismo e homossexualismo são mencionados de forma bastante explícita e interconectados. Estas vivências representam uma profusão de figuras femininas no inconsciente, que invadem mesmo a consciência, levando a uma identificação com o objeto (transvestismo e perversão).

Perdido o objeto de desejo, quando Don Juan é obrigado a partir de navio, sob ameaça de morte, novamente veste a máscara. Isto é, a máscara aparece em Don Juan sempre que o objeto desejado é perdido.

A máscara aparece em outro contexto quando o paciente diz ao Dr. Mickler que este necessitava de seu mundo imaginal, e pergunta se seu verdadeiro nome não é Don Octavio de Flores, o nome fictício que o terapeuta usara na abordagem inicial de seu paciente. Dr. Mickler responde que seu nome é Don Octávio de Flores e que Don Juan penetrara na sua verdadeira identidade, retirando todas as suas máscaras.

Fica claro que o símbolo da máscara adquire um significado inteiramente diferente quando se refere ao psiquiatra. Em Don Juan é um símbolo de sua intensa e exagerada relação com o inconsciente, a mulher mascarada da revista pornográfica simboliza o inconsciente deste paciente, seria o que Jung denominaria figura de anima, quando o paciente usa máscaras ele está sempre se identificando com sua anima, ou seu inconsciente.

Quando o dr. Mickler fala que suas máscaras foram retiradas, refere-se a uma identificação com sua persona profissional de psiquiatra que já pesa demais, já empecilho para um encontro criativo com sua vida amorosa e com sua identidade.

A persona, segundo Jung, é a máscara de adaptação social, necessária ao indivíduo, desde que ele não se identifique com ela. Dr. Mickler aprende com seu paciente a se desidentificar com sua persona ou prósopon, a máscara teatral do ator grego antigo. A máscara é necessária, mas pode também sufocar.

Percebemos, portanto, no simbolismo antitético da máscara, a polaridade dos personagens terapeuta e paciente, que proporciona o dinamismo de transferência e contra-transferência extremamente complementar.

Na verdade o filme, como já referimos, uma nova variação mitológica da saga de Don Juan, aponta para estes dois pares arquetípicos do inconsciente coletivo, a díada puer-et-senex, que estão presentes no mundus imaginalis de todos nós.

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(*) Comunicação em mesa redonda, após a exibição do filme, promovida pelo Instituto de Medicina Psicossomática do Rio de Janeiro, na Casa de Cultura Lauro Alvim- Rio, abril de 1997.


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